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conferencista
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14.09
21h30
MICHEL HENRY
FLORINDA MARTINS
BAG
Os outros em eu: uma abordagem fenomenológica
Convém lembrar qual é o objecto da fenomenologia: não são os objectos, mas o modo como eles se doam; não são os 'fenómenos', mas a sua fenomenalidade pura, considerada como tal. Ora há dois modos fundamentais e heterogéneos segundo os quais se manifesta tudo aquilo que podemos experienciar: o aparecer ek-stático do mundo, a auto-revelação imanente e patética da vida. Tratar a questão filosófica da relação com outro é referi-la ao fundamento fenomenológico do qual ela recebe a sua possibilidade transcendental, ao mesmo tempo que recebe a realidade fenomenológica da sua efectivação. Esta possibilidade sustenta-se na fenomenalidade da vida, jamais na do mundo. E isto, porque qualquer experiência do outro pressupõe os 'Si', os 'eu', os 'ego' nos quais ela se enlaça - 'Si', eu e ego que só advêm a si mesmos nesta auto-revelação originária da vida. Esta é a razão profunda do fracasso das grandes fenomenologias do século XX, ao abordarem a questão da relação com o outro, negligenciada pelo pensamento clássico: todos estes pensamentos são, com efeito, fenomenologias do mundo, na exterioridade do qual nenhuma relação consigo, nenhum Si são possíveis. Mostraremos, então, como é que só uma fenomenologia da vida é capaz de dar conta da ipseidade de cada um dos 'si' que intervêm na relação intersubjectiva e, ao mesmo tempo, dar conta da possibilidade desta relação. Assim, será posta em evidência a possibilidade fenomenológica originária de toda a comunidade. Tais resultados interessam, sem dúvida, à medicina, na medida em que se torna cada vez mais evidente que ela não pode reduzir-se a um saber objectivo e impessoal, por muito essencial que seja este último. A prática da medicina implica uma relação intersubjectiva entre o clínico e o paciente; ela depende da natureza desta relação. Porque o olhar clínico é um olhar transcendental que se experiencia no coração da realidade humana, a medicina é mais do que uma simples ciência; ela descobre-se ou redescobre-se, hoje, na nosso época ameaçada por um positivismo desastroso, como uma das formais essenciais da cultura.
Michel Henry nasceu a 10 de Janeiro de 1922, em Haipong (Vietname). Aos sete anos vem para França, onde faz toda a sua formação. É actualmente considerado um dos “maiores” nomes da fenomenologia francesa, conjuntamente com Paul Ricoeur e Emmanuel Levinas. Tem desenvolvido trabalho no âmbito da fenomenologia do afecto, nos limites da intencionalidade, partindo de uma análise das aporias da fenomenologia «tradicional», sobretudo da de Edmund Husserl e de Martin Heidegger. É também um especialista no pensamento de Marx. A sua obra está hoje traduzida em inglês, alemão, italiano, espanhol, português, japonês, romeno e turco. Para além de vários artigos, publicou já os seguintes livros: “L'essence de la manifestation” (PUF, 1963); ”Philosophie et phénoménologie du corps. Essai sur l'ontologie biranienne” (PUF, 1965) (II ed. em 1 vol 1990); “Marx”, 2 vols: “I. Une philosophie de la réalité”, “II. Une philosophie de l’économie” (Gallimard, 1976); ”Généalogie de la psychanalyse - le commencement perdu” (1985); “La barbarie” (Grasset, 1987); “Voir l’invisible. Sur Kandinsky” (Éd. Bourin-Julliard, 1988); ”Phénoménologie matérielle” (PUF, 1990); “Du communisme au capitalisme. Théorie d’une catastrophe” (O. Jacob, 1990); mais recentemente: “C’est moi la vérité. Pour une philosophie du christianisme” (Ed. Seuill, 1996), trad. port. (1998); ”Incarnation ­ une philosophie de la chair” (2000), trad. port. (2001). Michel Henry é ainda autor de vários trabalhos de literatura / ficção: “Le jeune officier” (Gallimard, 1954); ”L'amour les yeux fermés” (Gallimard, 1976); ”Le fils du roi” (Gallimard, 1981); ”La vérité est un cri” (Radio-France, théâtre, 1982); ”Le cadavre indiscret” (Albin Michel, 1996).
Florinda Martins é doutorada em Filosofia Moderna e Contemporânea. Colabora com as seguintes instituições de investigação e de formação: Centro de Formação da Associação de Escolas do Concelho da Amadora (na área de formação de professores); Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa (com investigação no projecto “Sujeito e passividade”); Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira, (com investigação em fenomenologia e tradução de obras de Michel Henry); Centre d'Études Michel Henry, em Beirute (com investigação da obra de e sobre Michel Henry). De entre as suas comunicações e trabalhos, destacam-se as seguintes: “La pauvreté comme catégorie ontologique” (1988); “Avaliação: Suporte da fragilidade pela reflexão” (1994); “Da visão das criaturas à fruição dos afectos” (1997); “Comunicação e sofrimento/Subjectividade na Clínica” (1997); “O que resta da clínica” (2000).